9 de novembro de 2013

A arte de transbordar


Arte de  Kelly Reemtsen



        Sentou-se ao piano sabendo em detalhes como se sentia, e mesmo assim decidiu tocar a musica que fez pra exorcizar-se dos resquícios e marcas profundas causadas pelo ladrão que adentrou sua casa e roubou tudo que havia de mais importante. E não mais suportando a carga das toneladas de ressentimentos, soltou o peso das mãos no piano e saiu em disparada pra um lugar onde pudesse recuperar o fôlego perdido ao subir a nado desde as profundezas escuras ao topo... 
     Parou ofegante, ajoelhou-se tentando respirar e olhou para o céu que estava melancolicamente alaranjado procurando facilitar todo o processo. Mas era inútil. Então decidiu tirar um pouco do mar negro pelos olhos para facilitar o fluxo respiratório. Era inútil. Gotas de água límpida escorriam pelos olhos. O que fazer quando seus órgãos estão exaustos demais pra ajudar a sobreviver? 
       O amigo alto moreno e cheio de compaixão e amizade desmedida chega bem na hora em que seu corpo cai lentamente exausto na grama verde. 
         Exaustão. 
        Olhou pro lado e com esforço sobre-humano, com a mão em punho fechado, bate no peio e diz num fio de voz e demonstrando certo desespero: 
          __ Me sufoca. Estou sufocando. 
         E as gotas transformaram-se em riachos, e lagos, e os lagos em precipitações espasmódicas. 
         Soluços. 
         Entre soluços, pequenos gritos. 
       E o amigo deitado ao seu lado, segura sua mão. Às vezes ele ouvia-a dizer: “Por favor, não me mate lentamente. Por favor, não me asfixie. Não me prenda” 
     E no final, agora com o céu cheio de estrelas, em silencio, sente a brisa gelada e sua mente instintivamente começa a cantar... 

“It's too cold outside 
For angels to fly 
For angels to die” 

        Abre a boca pra respirar profundo e então um lamento... 

 “Ohh, Ohh, Oohh 
Ohh, Ohh, Oohh” 




8 de novembro de 2013

Visão do Paraíso


          Todas as sextas feiras faço um longo percurso até o CAP'S onde faço terapia. No caminho muitas vezes me deparo com situações sutis ou totalmente diferentes. Existe sempre um sistema de percurso já decorado pelo meu cérebro. O mesmo passeio nessa rua ou vou passar por esse lado pq sei que mais a frente vai ter alguma sombra. E na parte final existe um morro enorme pra subir e em seu topo fica um cemitério, o Cemitério Municipal. Apesar de ter sido muito medrosa na infância, hoje em dia não carrego receios relacionados a cemitérios e essas coisas. 
          Sempre gostei de observar o contraste dos túmulos que aparecem acima do muro com as flores de plástico colocadas no dia de finados do ano anterior e o céu azul, límpido e com algumas nuvens lá e cá. A subida era tortuosa, mas quando chego nesse ponto do trajeto me soa mais tortuoso o percurso exato da minha casa até o topo do morro. Como se a partir dali começasse a fluir a poesia. 
           
          Numa sexta feira dessas, ao chegar ao topo daquela subida tortuosa, o sol estava escaldante e como sempre olhei pra porta do cemitério esperando ver o comum, e através desse comum encontrar a poesia. Maior foi a minha surpresa ao ver, esperando pelo caminhão de lixo, um sofá velho, gasto com o assento virado para a descida do morro. E fazia tempo que eu não via tanta poesia. O contraste de cores, a situação em si. É estranho como tudo contribuía para uma plenitude nova. E fiquei feliz por estar no lugar certo, na hora certa. Esse tipo de coisa contribui muito pra minha visão sobre as coisas. 
           A poesia engrandece o coração e reflete amor aos olhos. 
           Meus olhos me disseram muita coisa hoje. 
          
        “O céu está todo nublado hoje, mas as flores e as formas dos túmulos estão destacando-se mais. As flores estão com cores tão fortes! Você percebe esses detalhes? 
         Depois da chuva o ar fica sempre mais limpo e olhe como aquelas montanhas ao fundo estão numa cor incrível! Um azul meio acinzentado, meio embaçado. Elas estão límpidas. 
           O verde claro do pasto está vivo e destaca-se com o verde escuro dos cafezais ao lado. 
          A criança loira com tranças e sorriso banguela mais a frente ri a risada mais gostosa. 
        E por causa da mesma chuva as flores que estavam abertas semana passada hoje estão fechadas e caídas, tombadas. Mas elas continuam vermelhas.”. 
           
          Minha boca sorri apesar do coração palpitante.