25 de dezembro de 2014

O Natal dos meus sonhos



       Hoje eu acordei pequena, com 5 anos de idade. É dia de natal e, ao contrário das expectativas, o sol nasceu primaveril. Eu preservo o silêncio da manhã sonolenta. Todos ainda dormem menos minha mãe e o farfalhar dos talheres na cozinha. Eu prefiro sentar na poltrona em frente à janela tomando vento e sol e os chamando pra sentar comigo nos braços do sofá. 
       A ondulação da cortina é mágica e eu insisto em acender as luzes de natal à luz do dia porque simplesmente é natal. 
       Vou a cozinha assistir a fresta de luz entrar pela janela principal, que fica em frente à mesa grande distribuída verticalmente na cozinha minúscula, e tudo está transformado em dourado. 
      O chiar cheiroso das rabanadas na panela me faz despertar. Eu não tenho mais 5 anos, mas a plenitude ainda é minha.


14 de agosto de 2014

A descoberta do ser


imagem por Loui Jover

Em qual vida fajuta ela se encaixa?
Em qual quebra-cabeça a peça avulsa se encaixa?
Ela é uma C.O.L.A.G.E.M.* ?
Ela é viajante do futuro
que vaga por tempos distintos
provando valentia inútil
enquanto no fim da linha é assassinada
pela realidade?
Então quem mata não é vilão?
é vida?

* fragmentos figurativos unidos num propósito único: criar um ser que aparente valer a pena.


12 de agosto de 2014

Sobre a forma de sentir


Terminou de ler o livro levantou os olhos e olhou-o com olhar travesso. Levantou-se do sofá foi até o computador onde ele estava e puxou-o. Encostou-se na parede, puxou-o pra mais perto entregou um delineador labial e disse em voz suave: 

- Contorne os meus lábios. 

Ele olhou-a suspeito e sem entender, mas fê-lo lenta e cuidadosamente. Depois, ela pegou o objeto da arte e colocou-o na mesinha ao lado. Desabotoou a camisa dele lentamente encostou seu ouvido no peito dele, pegou um batom e desenhou um coração em seu devido lugar. Ainda sem entender olhou-a curioso, mas não disse nada. Não sabia onde queria chegar, mas conhecendo-a sabia que tudo isso tinha um propósito.

Desde o primeiro contato no café onde ela trabalhava e ele frequentava todos os dias depois do trabalho, tornaram-se amigos instantaneamente. Sempre admirou sua inteligência mordaz, sua língua ferina e seu senso de humor. Era ágil em pensar e atender os clientes. Tudo ao mesmo tempo. Admirou o modo de agir dela quando descobriu que o namorado a traíra com a melhor amiga. Mas também conhecia seus defeitos como ninguém. Seu jeito autoritário, sua maneira de demonstrar fortaleza, quando na verdade era totalmente delicada e quebrável, seu sonambulismo, que na verdade ele achava mais divertido que defeituoso. No dia em que ele decidiu zombar dela sobre isso, ela sem nenhuma afetação disse: 

- Você ronca como um carro velho e nem por isso te julgo. 

Ah, como ele amava essas respostas mordazes dela. Amava mesmo seus defeitos. Sim, descobriu algum tempo depois que estava apaixonado por ela. Perdidamente. Mas ela vivia dizendo que ele era o melhor amigo que ela já teve na vida. 

Entregou a ele um delineador para olhos preto e disse a ele. 

- Contorne meus olhos. 
    
Já não aguentando de curiosidade, perguntou: 

- Pra que tudo isso? 
      
- Só contorne. Ele o fez.
   
- Pronto. Agora eu sei a forma do seu coração e você sabe a forma dos meus olhos e dos meus lábios. Sabe, um dia desses, enquanto terminava o meu trabalho da faculdade na mesinha de centro da minha sala, você dormia no sofá de costas pra mim. Eu fiz com um dedo toda a forma das suas costas, desde o ombro até a cintura, e percebi que se quisesse enlaçar as minhas pernas na sua cintura, elas teriam um encaixe perfeito. 

- É? 

- É.

- E agora? O que acontece? 

- Agora tenha a decência de me beijar.




9 de junho de 2014

A águia que (quase) virou galinha


"Era uma vez uma águia que foi criada num galinheiro. Cresceu pensando que era galinha. Era uma galinha estranha (o que a fazia sofrer). Que tristeza quando se via refletida nos espelhos das poças d’água tão diferente! O bico era grande demais, adunco, impróprio para catar milho, como todas as outras faziam. Seus olhos tinham um ar feroz, diferente do olhar amedrontado das galinhas, tão ao sabor do amor do galo.
Era muito grande em relação às outras, era atlética. Com certeza sofria de alguma doença. E ela queria uma coisa só: ser uma galinha comum, como todas as outras.
Fazia um esforço enorme para isso. Treinava ciscar com bamboleio próprio. Andava meio agachada, para não se destacar pela altura. Tomava lições de cacarejo.
O que mais queria: que seu cocô tivesse o mesmo cheiro familiar e acolhedor do cocô das galinhas. O seu era diferente, inconfundível. Todos sabiam onde ela tinha estado e riam.
Sua luta para ser igual a levava a extremos de dedicação política. Participava de todas as causas. Quando havia greve por rações de milho mais abundantes, ela estava sempre na frente. Fazia discursos inflamados contra as péssimas condições de segurança do galinheiro, pois a tela precisava ser arrumada, estava cheia de buracos (nunca lhe passava pela cabeça aproveitar-se dos furos para fugir, porque o que ela queria não era a liberdade, era ser igual às outras, mesmo dentro do galinheiro).
Pregava a necessidade de uma revolução no galinheiro. Acabar com o dono que se apossava do trabalho das galinhas. O galinheiro precisava de nova administração galinácea. (Acabar com o galinheiro, derrubar as cercas, isso era coisa impensável. O que se desejava era um galinheiro que fosse bom, protegido, onde ninguém pudesse entrar – muito embora o reverso fosse “de onde ninguém pudesse sair”).
Aconteceu que, um dia, um alpinista que se dirigia para o cume das montanhas passou por ali. Alpinistas são pessoas que gostam de ser águias. Não podendo, fazem aquilo que chega mais perto. Sobem a pés e mãos, até as alturas onde elas vivem e voam. E ficam lá, olhando para baixo, imaginando que seria muito bom se fossem águias e pudessem voar.
O alpinista viu a águia no galinheiro e se assustou.
- O que você, águia, está fazendo no meio das galinhas? Ele perguntou.
Ela pensou que estava sendo caçoada e ficou brava.
- Não me goza. Águia é a vovozinha. Sou galinha de corpo e alma, embora não pareça.
- Galinha coisa nenhuma, replicou o alpinista. Você tem bico de águia, olhar de águia, rabo de águia, cocô de águia. É ÁGUIA. Deveria estar voando... E apontou para minúsculos pontos no céu, muito longe, águias que voam perto dos picos das montanhas.
- Deus me livre! Tenho vertigem das alturas. Me dá tonteira. O máximo, para mim, é o segundo degrau do poleiro, ela respondeu.
O alpinista percebeu que a discussão não iria a lugar nenhum. Suspeitou que a águia até gostava de ser galinha. Coisa que acontece freqüentemente. Voar é excitante, mas dá calafrios. O galinheiro pode ser chato, mas é tranqüilo. A segurança atrai mais que a liberdade.
Assim, fim de papo. Agarrou a águia e enfiou dentro de um saco. E continuou sua marcha para o alto da montanha.
Chegando lá, escolheu o abismo mais fundo, abriu o saco e sacudiu a águia no vazio. Ela caiu. Aterrorizada, debateu-se furiosamente procurando algo a que se agarrar. Mas não havia nada. Só lhe sobravam as asas.
E foi então que algo novo aconteceu. Do fundo de seu corpo galináceo, uma águia, há muito tempo adormecida e esquecida, acordou, se apossou das asas e, de repente, ela voou.
Lá de cima olhou o vale onde vivera. Visto das alturas ele era muito mais bonito. Que pena que há tantos animais que só podem ver os limites do galinheiro!"

Rubem Alves

3 de junho de 2014

A [Timidez] da Cecília


Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída

das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi. 
Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei

Cecília Meireles 



2 de junho de 2014

Sereno





Aquela manhã, no campo verde, brilhante de sereno, a menina sardenta, ainda criança por dentro lutava para se equilibrar nas beiradas estreitas do campinho do bairro enquanto as outras crianças brincavam de pega a pega. Ouviam-se gritos e risadas altas, mas Ferrugem encontrava-se irrequieta em seu objetivo. Dar passo ante passo. Um após o outro. Frente a frente. Ponta de um pé com o calcanhar do outro. Sua concentração a silenciava. Seu silencio ensurdecia. Os ouvidos dilatavam. Sorriso fraco enganador. Seu peito inflava sentimento. Lacrimejava os olhos. A grama molhada ensinava a SER. O mundo encheu-se de significado. Ferrugem adorava a nostalgia. Sentia-se completa quando nostálgica; ao contrario de Alice que queria um mundo que fosse só seu em que “nada era o que é porque tudo era o que não é.”, Ferrugem queria as pequenezas dos seus espaços. Equilibrava-se na corda bamba do campo, molhando a meia branca, o tênis e a alma. Sentia vontade de sorrir e cantar. Tudo em silencio. As outras crianças faziam barulho demais e seu canto seria só mais um canto no meio de toda algazarra. A cada tentativa sentia-se flutuar e pensava: “Se der mais alguns sofridos passos, talvez algum dia chego a ser pássaro que voa alto, que vive”. Sua concentração era tanta que o tempo passou a não existir. E o sorriso a se alargar, amargo e doce. Contrastes que só um ser nostálgico pode conhecer. Respirou o ar gélido e puro. Quando seu silencio não bastou escutou-se um estalo e cabum! O silêncio alheio a atingiu em cheio. O campo estava vazio, ela estava sozinha com seu desafio e seu silêncio. Ela esteve sozinha o tempo todo.





13 de maio de 2014

Agora um poema...


Venha embora comigo no meio da noite
Venha embora comigo e eu te escreverei uma música
Venha embora comigo em um ônibus
Venha embora para onde eles não possam nos tentar com suas mentiras

E eu quero caminhar ao seu lado
Em um dia nublado
Em campos onde o capim amarelo cresce à altura dos joelhos
Então, você pode tentar vir comigo?

Venha embora comigo e nos beijaremos
No topo de uma montanha
Venha embora comigo e eu irei
Nunca deixar de te amar

E eu quero acordar com a chuva
Caindo no telhado de zinco
Enquanto eu estou segura em seus braços
Então tudo que eu peço é que você

Venha embora comigo no meio da noite
Que venha embora comigo


... que foi transformado em canção.






28 de abril de 2014

Frio





Foto por The Cup Cake Dictionary   


O frio cortante do seu abraço
corta a rotina da minha retina
que estava acostumada a brilhar de encantamento.
Ingrato pretendente,
que de manhã ama-me
a tarde odeia-me
e a noite abandona-me.

Suma com todas as almas sugadas
as vidas roubadas
e esse seu olhar frio
emanando displicência.
Lucila Neves





Das constatações do amor







1 de fevereiro de 2014

Ao acaso, a brisa sopra.






"E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve." 


Cecília Meireles