9 de junho de 2014

A águia que (quase) virou galinha


"Era uma vez uma águia que foi criada num galinheiro. Cresceu pensando que era galinha. Era uma galinha estranha (o que a fazia sofrer). Que tristeza quando se via refletida nos espelhos das poças d’água tão diferente! O bico era grande demais, adunco, impróprio para catar milho, como todas as outras faziam. Seus olhos tinham um ar feroz, diferente do olhar amedrontado das galinhas, tão ao sabor do amor do galo.
Era muito grande em relação às outras, era atlética. Com certeza sofria de alguma doença. E ela queria uma coisa só: ser uma galinha comum, como todas as outras.
Fazia um esforço enorme para isso. Treinava ciscar com bamboleio próprio. Andava meio agachada, para não se destacar pela altura. Tomava lições de cacarejo.
O que mais queria: que seu cocô tivesse o mesmo cheiro familiar e acolhedor do cocô das galinhas. O seu era diferente, inconfundível. Todos sabiam onde ela tinha estado e riam.
Sua luta para ser igual a levava a extremos de dedicação política. Participava de todas as causas. Quando havia greve por rações de milho mais abundantes, ela estava sempre na frente. Fazia discursos inflamados contra as péssimas condições de segurança do galinheiro, pois a tela precisava ser arrumada, estava cheia de buracos (nunca lhe passava pela cabeça aproveitar-se dos furos para fugir, porque o que ela queria não era a liberdade, era ser igual às outras, mesmo dentro do galinheiro).
Pregava a necessidade de uma revolução no galinheiro. Acabar com o dono que se apossava do trabalho das galinhas. O galinheiro precisava de nova administração galinácea. (Acabar com o galinheiro, derrubar as cercas, isso era coisa impensável. O que se desejava era um galinheiro que fosse bom, protegido, onde ninguém pudesse entrar – muito embora o reverso fosse “de onde ninguém pudesse sair”).
Aconteceu que, um dia, um alpinista que se dirigia para o cume das montanhas passou por ali. Alpinistas são pessoas que gostam de ser águias. Não podendo, fazem aquilo que chega mais perto. Sobem a pés e mãos, até as alturas onde elas vivem e voam. E ficam lá, olhando para baixo, imaginando que seria muito bom se fossem águias e pudessem voar.
O alpinista viu a águia no galinheiro e se assustou.
- O que você, águia, está fazendo no meio das galinhas? Ele perguntou.
Ela pensou que estava sendo caçoada e ficou brava.
- Não me goza. Águia é a vovozinha. Sou galinha de corpo e alma, embora não pareça.
- Galinha coisa nenhuma, replicou o alpinista. Você tem bico de águia, olhar de águia, rabo de águia, cocô de águia. É ÁGUIA. Deveria estar voando... E apontou para minúsculos pontos no céu, muito longe, águias que voam perto dos picos das montanhas.
- Deus me livre! Tenho vertigem das alturas. Me dá tonteira. O máximo, para mim, é o segundo degrau do poleiro, ela respondeu.
O alpinista percebeu que a discussão não iria a lugar nenhum. Suspeitou que a águia até gostava de ser galinha. Coisa que acontece freqüentemente. Voar é excitante, mas dá calafrios. O galinheiro pode ser chato, mas é tranqüilo. A segurança atrai mais que a liberdade.
Assim, fim de papo. Agarrou a águia e enfiou dentro de um saco. E continuou sua marcha para o alto da montanha.
Chegando lá, escolheu o abismo mais fundo, abriu o saco e sacudiu a águia no vazio. Ela caiu. Aterrorizada, debateu-se furiosamente procurando algo a que se agarrar. Mas não havia nada. Só lhe sobravam as asas.
E foi então que algo novo aconteceu. Do fundo de seu corpo galináceo, uma águia, há muito tempo adormecida e esquecida, acordou, se apossou das asas e, de repente, ela voou.
Lá de cima olhou o vale onde vivera. Visto das alturas ele era muito mais bonito. Que pena que há tantos animais que só podem ver os limites do galinheiro!"

Rubem Alves

3 de junho de 2014

A [Timidez] da Cecília


Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída

das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi. 
Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei

Cecília Meireles 



2 de junho de 2014

Sereno





Aquela manhã, no campo verde, brilhante de sereno, a menina sardenta, ainda criança por dentro lutava para se equilibrar nas beiradas estreitas do campinho do bairro enquanto as outras crianças brincavam de pega a pega. Ouviam-se gritos e risadas altas, mas Ferrugem encontrava-se irrequieta em seu objetivo. Dar passo ante passo. Um após o outro. Frente a frente. Ponta de um pé com o calcanhar do outro. Sua concentração a silenciava. Seu silencio ensurdecia. Os ouvidos dilatavam. Sorriso fraco enganador. Seu peito inflava sentimento. Lacrimejava os olhos. A grama molhada ensinava a SER. O mundo encheu-se de significado. Ferrugem adorava a nostalgia. Sentia-se completa quando nostálgica; ao contrario de Alice que queria um mundo que fosse só seu em que “nada era o que é porque tudo era o que não é.”, Ferrugem queria as pequenezas dos seus espaços. Equilibrava-se na corda bamba do campo, molhando a meia branca, o tênis e a alma. Sentia vontade de sorrir e cantar. Tudo em silencio. As outras crianças faziam barulho demais e seu canto seria só mais um canto no meio de toda algazarra. A cada tentativa sentia-se flutuar e pensava: “Se der mais alguns sofridos passos, talvez algum dia chego a ser pássaro que voa alto, que vive”. Sua concentração era tanta que o tempo passou a não existir. E o sorriso a se alargar, amargo e doce. Contrastes que só um ser nostálgico pode conhecer. Respirou o ar gélido e puro. Quando seu silencio não bastou escutou-se um estalo e cabum! O silêncio alheio a atingiu em cheio. O campo estava vazio, ela estava sozinha com seu desafio e seu silêncio. Ela esteve sozinha o tempo todo.