5 de maio de 2017

Sororidade*


     Fechei os olhos pra sentir a brisa. Aquela aura sem cor definida parecida com outono, mas com jeito de primavera. Com certeza era primavera. Era cheiro de primavera não era? Que sorte estar lá praquela brisa. Senti o roçar do dedo no rosto e seu toque me fez livre. Assustada com o toque (ou talvez com a liberdade) abri meus olhos e a bailarina estava ao meu lado com seus olhos grandes me observando. Ela parecia diferente sem sua roupa de festa e suas sapatilhas rosa perolado.
    Tinha consigo algumas pétalas de rosa na mão. Colocou uma delas entre os dedos polegar e indicador e roçava seu dedo sentindo sua maciez me observando pelo canto do olho e pude sentir algo forte no peito. Parecia algo como uma dor profunda, que pesa a alma e também alegria e ao mesmo tempo um sentimento sublime, sutil. Acabei fechando os olhos e apertando-os deixei cair uma lágrima. Enquanto ela caía senti um frio na barriga como quando se está na roda gigante. Abri os olhos e caí na gargalhada. Rimos juntas. Ainda sentada na areia da praia dobrei as pernas na altura do queixo e encostei-o nos joelhos e abracei-as. Voltamos a ficar em silêncio. Mas era um silêncio que gritava. E me pulsava o coração.
    Mais tarde caminhamos lado a lado conversando sobre todas as coisas que se pode falar sem medo nenhum, com leveza. O sol se pôs e fizemos uma fogueira. Assamos marshmallows; enquanto observava as estrelas, a bailarina pulava uma amarelinha invisível. Soltei o ar e sorri leve ao vê-la comemorar chegar ao céu. Deitou-se de forma abrupta ao meu lado e adormeci enquanto ela falava sobre as constelações.
    Amanheci junto com o sol e com o canto das gaivotas. Me sentei sonolenta e a observei brincar na água do mar. Caminhei lentamente para a água e parei passando os pés na areia molhada. Quando a minha primeira onda do dia molhou meus pés senti uma felicidade tanta que acabei deitando na areia molhada e deixei que as ondas me molhasse dos pés à cabeça com a desculpa de que felicidade nunca é demais. Fui puxada para brincar na água e acabei aceitando. Me senti na obrigação de ser feliz.




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*Esse post faz parte do Projeto Escrita Criativa